Método Sistêmico

O espirito da democracia é conviver com as diferenças, onde ideias sobre uma mesma coisa são apresentadas e tem seguidores e aqueles com pontos contrários, com enfoques diferentes e convicções e todos trabalhando para o bem comum.
Em ciências o mesmo se sucede, sendo que em algumas áreas existem muitos “caminhos” para a sua aplicação. Em minha área de ciência, Psicologia, isto ocorreu e nestes 35 anos que tenho de formação se multiplicaram a linhas de atuação absurdamente e cada psiquiatra ou psicólogo que se sobressaiu criou sua linha e uma infinidade de  seguidores.
A única coisa que não mudou foi à doença, mudaram alguns rótulos, mas a etiologia continuou a mesma, apenas mais pesquisada e com os recursos que a informática propiciou, oferecendo trocas entre profissionais em diferentes partes do globo em num tempo mínimo, coisa impossível duas décadas atrás.
Trabalhando com situações emergenciais em unidades, onde pessoas ou grupos foram afetados psicologicamente pela violência da ação de assaltantes e/ ou sequestradores, pude avaliar minha intervenção logo após o atendimento, pois as unidades tinham que ser abertas ao público, porque trabalhavam com dinheiro e não podiam parar. Os funcionários mais afetados eram afastados pelo medico e o resto continuava trabalhando na unidade. Posteriormente dávamos uma atenção especial àquela unidade até que o clima psicológico se estabilizasse. Pois bem, isto não existia em qualquer compendio de psicologia nos idos de 1984 e como psicólogos e com um treinamento para atender pessoas em ambientes isolados e com todo o conforto, fui parar nas unidades assaltadas ou casas de famílias que tinham sido invadidas por sequestradores. Nos dois lugares o medo era a característica principal daquelas pessoas. A tarefa quase impossível era dar o atendimento aquelas vitimas e o psicólogo não tem estetoscópio, receita calmante ou dá dispensa do serviço. Os machucados são invisíveis, mas as emoções brotam e as cicatrizes causadas pelos meliantes transparecem em seus comportamentos. Como trabalhar estes comportamentos manifestados pelas vitimas ainda nas suas unidades e obter resultados. Qual a melhor linha de psicologia a ser aplicada nestas ocasiões.

Minha vivencia de 25 anos nesta atividade mostrou que muitas linhas da psicologia ajudam nestas circunstancias e nenhuma particularmente é mais importante que a outra. A dinâmica que se forma quando um grupo é afetado pelo medo gera comportamentos variados, onde alguns aceitam falar do que passou e outros procuram se fechar. Ao mesmo tempo em que temos que respeitar cada um, é importante falar da vivencia, mesmo que particularmente. Deixamos todos os canais abertos, ainda que venha ocorrer posteriormente. Outro fator importante é uma boa avaliação médica. Sendo que logo após o evento quanto mais apoio e atenção à unidade e/ou pessoas tiverem, melhor será o resultado.
Aqui no Brasil temos duas grandes linhas de psicologia: a Psicanalise e a Comportamental presentes na maioria dos cursos, apesar de serem antagônicas. Sendo assim alguns alunos tendem para o velho Freud e seus seguidores, já outros para a linha Comportamental, que é mais objetiva, de resultados visíveis, com as famosas gaiolas de Skinner e seus experimentos com os ratos. A primeira totalmente teórica e abstrata, mas com um charme inebriante, a segunda palpável, quantitativa, mensurável e realista.
Quando iniciei o atendimento as vítimas de assalto e/ou sequestro, as duas teorias não me serviram num primeiro momento, pois existia um clima desconcertante nas unidades onde havia uma mistura de medo e as mais diversas emoções. Tanto a psicanalise como a linha comportamental não permitiam uma ação imediata que pudesse auxiliar um grupo tão mortificado pelos eventos acontecidos. Sendo assim ate 1997 meu trabalho era ir ate as unidades e conversar com as pessoas mais afetadas emocionalmente, que eram as que sofreram diretamente ameaças e violência física.
Inicialmente não existia nenhum estudo com grupos vitimas desta violência e tão pouco era usado a atual nomenclatura estresse pós- traumático. Em meio as minhas pesquisas encontrei no livro de Daniel Goleman -Inteligência Emocional – um capitulo que abordava o estresse pós traumático. Onde são apresentados vários estudos de profissionais da área de neurologia, psiquiatria e psicologia relativa a pessoas ou grupos que passaram por grande tensão emocional e desenvolveram o estresse pós- traumático. Um trabalho da Dra. Judith Lewis Herman, psiquiatra de Harvard, destaca-se por seu pioneirismo em recuperação do trauma.
Embora todo o meu trabalho com vitimas de assalto e sequestro não recebessem este diagnostico - estresse pós-traumático, muitos necessitavam de um apoio psicológico, que dava inicialmente e quando percebia que existia um comprometimento maior encaminhava a um psicólogo para uma psicoterapia e/ou psiquiatra para tratamento clínico. Entretanto observando as três etapas que a Dra. Judith desenvolvia para aliviar as tensões emocionais vivenciadas, percebi que isto de uma forma empírica e intuitiva eu já praticava há muitos anos em meus atendimentos.
O novo nesta linha de trabalho é a descoberta dos neurocientistas onde observam: “os momentos vívidos, aterrorizantes, tornam-se lembranças impressas nos circuitos emocionais. Os sintomas são, na verdade, sinais de uma amígdala cortical superestimada impelindo as lembranças vividas do momento traumático a continuar invadindo a consciência”. Com isso elas se tornam gatilhos sensíveis prontos para soar o alarme ao menor sinal de que o momento traumático possa acontecer mais uma vez. Este fenômeno do gatilho sensível é uma marca característica de todos os tipos de traumas emocionais, incluindo os repetidos maus-tratos físicos na infância.
Com a vivencia de longos anos atendendo vitimas de assalto e sequestro mais os dados obtidos através do estudo da Dra. Judth, baseado na neurociência, pude finalmente desenvolver um trabalho com mais clareza, consistência e base cientifica. Agora em 2012 com todos os recursos que a Internet oferece, vejo varias ofertas de cursos para estresse pós-traumático, mas quando iniciei em 1984 foi por insistência e sensibilidade ao perceber que as pessoas precisavam de ajuda não só durante assalto/sequestro como depois. Com isto fui criando uma serie de ações conforme as emergências iam surgindo e aproveitando medidas de determinadas linhas de psicologia ate chegar ao método sistêmico. Era um facilitador, porque não permitia as  limitações que as teorias impunham, dado as situação  do  assalto ou sequestro  e todos os efeitos que este gera na saúde física e  emocional das pessoas atingidas.